quarta-feira, 6 de abril de 2011

Carta ao meu gato

Nasceste no dia em que se comemoravam os 8 anos da minha filha. Entre uma fatia de pizza e um golo de coca-cola, ia-me chegando a notícia de mais um gatinho que houvera nascido. Tu foste um deles, meu gato. Conseguiste resistir a mais dois irmãos que sucumbiram. A avó, com todo o seu carinho, conseguiu fazer com que resistisses.
Desde logo entraste no coração da família. Um piolhinho tão pequenino, inofensivo, de olhos azuis, acompanhado por um outro irmão que tinha sobrevivido. Decidimos ficar contigo. Foste o eleito. Que bom para ti, que bom para nós. Escolhemos o gato go’do, louco, que mordia os tornozelos aos mais incautos, que de quando em vez, quando chateado, lá mostrava as suas garras ou os dentes afiados. Um gato elegante, altivo, imponente, mas com um coração que se desfazia rapidamente.
Um gato delicioso que eu amava e muito me amava. Creio que fui a eleita do seu coração. Que privilégio, meu gato. Corrias o corredor sempre que conseguias escapar para vir ao meu encontro, lambias-me as mãos quando te pedia beijinhos e era a única pessoa a quem deixavas que te pegasse ao colo como a um bebé. Ali ficávamos os dois, eu a falar-te ao ouvido, a amar-te, e tu a ronronar de prazer. Foram momentos inesquecíveis os que me deste, meu gato. Foste um gato feliz e trouxeste muita felicidade à família. A mim e a todos os que contigo conviveram. Tinhas tanto de tonto como de amoroso. Eras imprevisível para os outros. Confesso que às vezes tinha medo que estivesses num dia menos colorido e me desses uma dentadinha amigável. Mas tal poucas vezes aconteceu e já não o lembro. Respeitámo-nos sempre um ao outro como iguais. Tu comunicavas da forma que podias e já no fim da vida surpreendeste-nos com o teu miar. Quem sabe se não seria já um presságio do que iria acontecer? Se soubéssemos o futuro quereríamos mudá-lo. Não o sabemos. Nunca o adivinharemos. Tanto melhor para que não soframos por antecipação.
Hoje, dia 27 de Março, foi o dia em que não conseguiste resistir mais à doença. Partiste. Mas, uma vez mais, assim como não nasceste sozinho, também eu estava na tua partida. Aguardaste por mim. Resististe para que fosse comigo que sairias do teu corpo já débil e nos deixavas. Foste em paz, no meio de muitas festinhas e muitas palavras que já bem conhecias e outras que te disse apenas a ti. Fica o nosso segredo, meu gato go’do. Para sempre.


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