segunda-feira, 18 de abril de 2011

COBERTOR



Encostou-se naquele canto
da entrada do prédio de luxo


Puxou para cima
o velho sobretudo
que lhe haviam ofertado
numa das ruas daquela cidade
que nunca seria sua


A barba por fazer
incomodava-o
os seus longos cabelos
já matizados
abrigavam-no do frio
daquela noite escura 
sombria e vazia


Decidiu abrigar-se
mesmo por ali


Poisou no chão
a caixa de papelão
que tinha retirado
de um caixote-do-lixo
próximo de si
que lhe servia também
de alimento durante o dia


Deitou-se desejando
adormecer rapidamente


Encontrava-se já a sonhar
quando algo lhe caiu em cima
era um velho cobertor
felpudo cor de leopardo
que tinha sido depositado
em cima do seu velho corpo
e ali ficara


Permaneceu imóvel
devia estar ainda a sonhar


Contudo o calor
que agora sentia
transportava-o até à casa
que abandonara
aos braços quentes
da sua mulher
ao seu ninho de amor


Deu graças por ter sido
tão feliz um dia


Sorriu
ajeitou o velho cobertor
e pôde por fim
retirar as mãos
que se aqueciam
nos bolsos
daquele velho
sobretudo
já sem cor


voltara a ser feliz
as suas mãos
estavam livres


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