Encostou-se naquele canto
da entrada do prédio de luxo
Puxou para cima
o velho sobretudo
que lhe haviam ofertado
numa das ruas daquela cidade
que nunca seria sua
A barba por fazer
incomodava-o
os seus longos cabelos
já matizados
abrigavam-no do frio
daquela noite escura
sombria e vazia
Decidiu abrigar-se
mesmo por ali
Poisou no chão
a caixa de papelão
que tinha retirado
de um caixote-do-lixo
próximo de si
que lhe servia também
de alimento durante o dia
Deitou-se desejando
adormecer rapidamente
Encontrava-se já a sonhar
quando algo lhe caiu em cima
era um velho cobertor
felpudo cor de leopardo
que tinha sido depositado
em cima do seu velho corpo
e ali ficara
Permaneceu imóvel
devia estar ainda a sonhar
Contudo o calor
que agora sentia
transportava-o até à casa
que abandonara
aos braços quentes
da sua mulher
ao seu ninho de amor
Deu graças por ter sido
tão feliz um dia
Sorriu
ajeitou o velho cobertor
e pôde por fim
retirar as mãos
que se aqueciam
nos bolsos
daquele velho
sobretudo
já sem cor
voltara a ser feliz
as suas mãos
estavam livres

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