sábado, 9 de abril de 2011

O CORREDOR


No corredor escuro alongam-se as noites em que o meu corpo te procura. Embato no velho móvel que afunila a minha passagem. Antigamente não estava aqui. Era a tua estante cheia de livros, que devoravas noites a fim, que enchia o nosso espaço.
Continuo às escuras.
Tacteando o caminho passo pelo novo aparador que comprei talvez para amparar a minha dor. Chego com dificuldade ao outrora nosso quarto. A cama já não é a mesma.
Esta não reconhece o amor que trocámos loucos, sedentos e ávidos, de boca e mãos abertas para agarrar aquele tempo. Na mesa-de-cabeceira permanece a marca da fotografia da nossa felicidade. No guarda-fatos jazem os teus cabides vazios. Há espaço que resta.
Dispo-me a pensar quando não era eu que o fazia, mas sim tu, cobrindo-me de beijos e murmurando palavras que me faziam voar.
Entro na cama e gelo. Nem o novo edredão me consegue aquecer. Passo a mão ao longo da cama à tua procura. Preciso de calor. Tento permanecer de luz apagada mas a tua imagem dança ao longo do quarto. Acendo a luz, volto à cozinha e ponho a aquecer água para o saco. Será ele que me acompanhará, a partir de agora, nestas longas e frias noites, sem ti.

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